domingo, dezembro 03, 2006

Acreditar em nós

O referendo foi marcado, não há como fugir ao assunto. De tão repetidos os argumentos, o tema tende a desgastar-nos e confesso faltar-me já a paciência para os que vêem a mulher que interrompeu a gravidez como criminosa ou, no mínimo, alguém incapaz de tomar decisões. Mas, a verdade é que o debate está longe de ultrapassado e não podemos ser vencidas/os pelo cansaço. O referendo está à porta e o «sim» tem que ganhar. Votar «sim», é dizer sim a quê? Não, não é a que a mulher aborte sempre e quando quiser. É a que a mulher possa interromper a gravidez até às dez semanas, por sua decisão, e que possa fazê-lo num lugar decente. Como se lembrava ali, a questão do aborto está longe de ser um problema das classes baixas, como tantas vezes se ouve, das mulheres pobres que não têm como sustentar (mais) um filho. Todos sabemos, aborta-se em todas as classes (e, já agora, em todos os lados deste debate). O que está aqui em causa, ao dizermos sim, é que as mulheres com menos recursos possam interromper a gravidez nas mesmas condições de saúde que as outras. Que se morra menos. Sim, trata-se de uma questão de saúde e de igualdade de direitos. E de que nenhuma mulher, rica ou pobre, tenha que responder em tribunal por ter interrompido uma gravidez. Trata-se, ainda, de não subestimar, mas acreditar e valorizar a mulher (e o homem com quem esta partilha a decisão). De dar prioridade na decisão a quem esta mais diz respeito. O Estado decidiu que, até às 10 semanas, é permitido interromper a gravidez em caso de malformação do feto ou de violação. Quem pode saber se essas situações são as mais dolorosas para a mulher grávida? Porquê esses critérios e não outros? Alguém pode garantir não existirem situações piores? Somos todos/as iguais para sofrermos do mesmo modo em condições idênticas? Não, respondo eu. Uma mulher pode, por exemplo, aceitar levar para a frente uma gravidez em que foi detectada uma malformação do feto e não desejar ter um filho saudável, fruto de uma relação consentida, mas que lhe arruinou o amor próprio, a confiança em si, os amigos, quem sabe se não tão má (como é que alguém, que não ela, pode avaliar?) como uma violação. Outra mulher pode não querer ter um filho por lhe faltarem as condições (de qualquer ordem) que julga necessárias para se ser boa mãe. As histórias poderão ser muitas, tantas quantas as pessoas diferentes e as suas consciências. Quem pode avaliar a intensidade da dor dos outros? Não se pede a alguém que defenda o aborto, mas simplesmente que acredite que as mulheres são capazes de decidir e que não devem ir presas ou morrer por interromperem uma gravidez. E, de uma vez, que fique claro: mesmo que votem «sim», as mulheres poderão sempre decidir «não».

3 comentários:

ACJ disse...

A humanidade ainda se vai envergonhar desta treta toda. Como noutros exemplos da história, insiste-se na desumanidade, em nome da humanidade. Está mais do que dito e provado que penalização do aborto nem sequer cumpre os fins a que se propõe, para além de ser contraproducente. Há, contudo, uma certa hipocrisia judaico-cristã que teima em ficar. E assim se governa o mundo. Século depois, pede-se comodamente desculpa ao mundo, como mereceu Galileu. Que importa? Uma missazinha limpa-nos a alma! Ah, já que estamos num mundo em que os argumentos formais é que interessam, também importa que a pílula não evite a concepção (mas apenas a nidação). Pois não, é um pormenor sem interesse. E a racionalidade não é chamada para este caso. Por isso, percebo as posições mais radicais que exigem que se parta para a via legislativa, sem se passar para a iniciativa carnavalesca do referendo. Faz sentido e é coerente. But...where are the balls? Há certos países que resolveram a coisa de forma mais pragmática e, para este caso, vão gerindo da melhor maneira o estigma «terceiro mundista»: uma circularzinha do senhor ministro da saúde aconselha que se aborte nos hospitais, em condições de segurança. As leis reaccionárias servem mesmo para isto, para serem violadas. Pena que não se diga que ser «plural e heterogéneo» também nos abre espaço para isto...para respeitar a vida e a igualdade. Ámen!

Pé de Tulipe disse...

Nós já nos envergonhamos desta treta toda. A Igreja Católica terá um dia que se chegar bem à frente num pedido de desculpa pelo papel que tem tido. Foi nos bancos das igrejas que se desenhou o fracasso do último referendo sobre a despenalização da IVG. Quantas mulheres terão morrido por isso? Uma vitória massiva do sim, será também uma vitória sobre a intervenção reaccionária da Igreja (também na vida dos que não partilham a sua fé). Por isso, há que ganhar! Neste caso, não basta contornar a lei, porque há muito em causa. Em Moçambique, no país da circular de que falas, já ouvi, por parte de representantes muçulmanos discursos bem mais progressivos e respeitadores da mulher do que o que veicula a igreja católica em Portugal sobre esta questão.

Ricardo disse...

Sou apenas um churrasqueiro brasileiro, sem muitas pretensões, senão as de falar sobre meu assunto predileto e encontrar coisas bacanas na internet.Achei seu blogue. Adorei. Gosto da nossa Língua. E você a oferece de forma apaixonante, numa das suas deliciosas variações.
Não bastasse, sua posição sócio-política relação à essa questão pseudo-polêmica (por força de orientações e posições religiosas anacrônicas, que também nos infernizam no Brasil), só isso, já valeria indicação para um Oscar dos Blogues.
Saudações do Ceguinho no Churrasco.